19/03/2026
Cultura Red Pill: o discurso de ódio às mulheres que se concretiza em violências físicas, psicológicas e letais
Em 2018, o estudante Alek Minassian, atropelou e matou 10 pessoas em Toronto (Canadá) e, em 2022, foi condenado à prisão perpétua. Em 2021, Jake Davison, de 22 anos, matou cinco pessoas em Plymouth (Inglaterra) e suicidou-se em seguida. Em 2011, no Rio, Wellington Menezes de Oliveira, 23 anos, matou 10 meninas em uma escola do bairro de Realengo, e também se matou. No último dia 4 de março, Vitor Hugo Oliveira Simonin, 18 anos, um dos envolvidos no estupro coletivo de uma adolescente no Rio, entregou-se à Polícia com uma camisa onde se lia a frase “regret nothing” (não se arrependa de nada).
O que todos esses casos de violência têm em comum? Alguma ligação com chats e perfis misóginos que se proliferam na internet. Ultra capilarizado, esse conteúdo é conhecido como a machosfera, e nela se destaca o movimento red pill (pílula vermelha, em português).
O que é a cultura red pill?
O termo red pill é uma referência ao filme Matrix, de 1999. Na ficção científica, o protagonista Neo é provocado entre escolher a pílula azul, que o faria permanecer alienado na matrix (um mundo simulado virtualmente) ou a pílula vermelha, que o acordaria para a realidade, em que os seres humanos são explorados e controlados por máquinas. Red pill é uma metáfora para homens que passariam a enxergar a “realidade” de uma sociedade que, segundo eles, é manipulada pelas mulheres e que inferiorizaria os homens.
A cultura red pill se desenvolveu na internet e atrai principalmente jovens e adolescentes que se sentem rejeitados pelas mulheres, frustrados em suas relações sociais e sexuais, e que se autodenominam incels, abreviação para “involuntary celibate” (celibatário involuntário), homens que desejam ter relações sexuais, mas não conseguem. A cultura red pill reforça nesses homens a misoginia, o ressentimento e a crença de que homens têm direito ao sexo e são hierarquicamente superiores às mulheres.
Essa ideologia se prolifera em grupos virtuais como os chans (abreviação de channel = canal), que são fóruns de debates anônimos, em grande parte situados na dark web – parte da deep web (internet oculta) que exige softwares especiais para ser acessada e que em geral é usada para atividades ilícitas. Mas a cultura misógina red pill também se propaga à vista de todos, manifestando-se livremente nas redes sociais, em perfis com milhares de seguidores, como o do influenciador britânico Andrew Tate, 39 anos, que popularizou o lema “regret nothing”, estampado no peito do envolvido no estupro de Copacabana. Ou, para citar um exemplo brasileiro, o perfil de Thiago Schutz, 37 anos, com mais de 35 mil seguidores no Instagram.
Tate, com cerca de 10 milhões de seguidores no X, é acusado de estupro, tráfico de pessoas e crime de exploração sexual de mulheres. Schutz, ironicamente conhecido na internet como o Calvo do Campari, foi acusado de agressão e tentativa de estupro contra a então namorada, em dezembro passado, além disso, o Ministério Público reabriu investigação contra ele por violência psicológica e ameaças à atriz Lívia La Gato e à cantora Bruna Volpi.
A conivência das big tech
A coordenadora do Comando Nacional dos Bancários e presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região, Neiva Ribeiro, destaca que esses perfis que propagam o ódio e a violência contra mulheres e que influenciam milhões de homens mais jovens crescem sob a conivência das big techs como Meta, dona do Instagram, Facebook, Whatsapp e Treads, xAI de Elon Musk, dona do X (antigo Twitter) e a chinesa ByteDance, dona do Tik Tok.
“Perfis red pill propagam conteúdos criminosos e mesmo assim são mantidos nas redes sociais sob a total conivência das gigantes que controlam as redes sociais, porque o discurso de ódio gera engajamento que, por sua vez, rende safras milionárias para essas empresas”, ressalta Neiva.
E o resultado disso, diz a dirigente, é o crescimento cada vez maior de agressões físicas e psicológicas contra mulheres, estupros e feminicídios no Brasil e no mundo, por meio do reforço a uma cultura misógina e machista.
Educação para um mundo antimachista
Neiva também destaca a importância de iniciativas de enfrentamento a essa cultura misógina, baseadas em informação, educação e ações de proteção, e lembra o papel do Sindicato nesse sentido.
“A construção de uma sociedade sem misoginia e machismo sempre foi uma bandeira de luta fundamental para os Sindicatos. Assim, na Campanha dos Bancários 2020, conquistamos na mesa de negociação com a Fenaban a implantação, pelos bancos, de canais de atendimento a bancárias vítimas de violência doméstica, conquista que foi se aperfeiçoando a cada ano. Além disso, em 2019, lançamos o projeto Basta! Não irão nos calar, que oferece assessoria jurídica especializada a mulheres vítimas de violência doméstica, bancárias ou não”, exemplifica.
A iniciativa foi ampliada pela Contraf-CUT e hoje o Basta! é replicado por 14 sindicatos da categoria bancária, nas cinco regiões do país, cobrindo um total de 485 cidades. Desde sua criação, o projeto já atendeu 531 pessoas, sendo 529 mulheres.
> Saiba mais sobre o Canal Basta! Não Irão nos Calar para bancárias de Catanduva e região aqui
Além disso, o movimento sindical bancário produziu, em parceria com institutos renomados na área, cartilhas educativas voltadas para o público masculino. “É importante dialogar com os homens porque o combate à violência de gênero tem de envolver toda a sociedade”, acrescenta.
Série de reportagens
Os dados da violência contra mulheres no Brasil têm sido alarmantes. Números de feminicídios, estupros e agressões têm crescido ano a ano. Por isso, neste mês de março, marcado pelo Dia Internacional da Mulher (8 de março), o Sindicato resolveu produzir uma série de reportagens sobre o tema. Esta é a segunda matéria da série, e ao longo dos próximos dias publicaremos outras abordando aspetos variados da questão. Acompanhe!
O que todos esses casos de violência têm em comum? Alguma ligação com chats e perfis misóginos que se proliferam na internet. Ultra capilarizado, esse conteúdo é conhecido como a machosfera, e nela se destaca o movimento red pill (pílula vermelha, em português).
O que é a cultura red pill?
O termo red pill é uma referência ao filme Matrix, de 1999. Na ficção científica, o protagonista Neo é provocado entre escolher a pílula azul, que o faria permanecer alienado na matrix (um mundo simulado virtualmente) ou a pílula vermelha, que o acordaria para a realidade, em que os seres humanos são explorados e controlados por máquinas. Red pill é uma metáfora para homens que passariam a enxergar a “realidade” de uma sociedade que, segundo eles, é manipulada pelas mulheres e que inferiorizaria os homens.
A cultura red pill se desenvolveu na internet e atrai principalmente jovens e adolescentes que se sentem rejeitados pelas mulheres, frustrados em suas relações sociais e sexuais, e que se autodenominam incels, abreviação para “involuntary celibate” (celibatário involuntário), homens que desejam ter relações sexuais, mas não conseguem. A cultura red pill reforça nesses homens a misoginia, o ressentimento e a crença de que homens têm direito ao sexo e são hierarquicamente superiores às mulheres.
Essa ideologia se prolifera em grupos virtuais como os chans (abreviação de channel = canal), que são fóruns de debates anônimos, em grande parte situados na dark web – parte da deep web (internet oculta) que exige softwares especiais para ser acessada e que em geral é usada para atividades ilícitas. Mas a cultura misógina red pill também se propaga à vista de todos, manifestando-se livremente nas redes sociais, em perfis com milhares de seguidores, como o do influenciador britânico Andrew Tate, 39 anos, que popularizou o lema “regret nothing”, estampado no peito do envolvido no estupro de Copacabana. Ou, para citar um exemplo brasileiro, o perfil de Thiago Schutz, 37 anos, com mais de 35 mil seguidores no Instagram.
Tate, com cerca de 10 milhões de seguidores no X, é acusado de estupro, tráfico de pessoas e crime de exploração sexual de mulheres. Schutz, ironicamente conhecido na internet como o Calvo do Campari, foi acusado de agressão e tentativa de estupro contra a então namorada, em dezembro passado, além disso, o Ministério Público reabriu investigação contra ele por violência psicológica e ameaças à atriz Lívia La Gato e à cantora Bruna Volpi.
A conivência das big tech
A coordenadora do Comando Nacional dos Bancários e presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região, Neiva Ribeiro, destaca que esses perfis que propagam o ódio e a violência contra mulheres e que influenciam milhões de homens mais jovens crescem sob a conivência das big techs como Meta, dona do Instagram, Facebook, Whatsapp e Treads, xAI de Elon Musk, dona do X (antigo Twitter) e a chinesa ByteDance, dona do Tik Tok.
“Perfis red pill propagam conteúdos criminosos e mesmo assim são mantidos nas redes sociais sob a total conivência das gigantes que controlam as redes sociais, porque o discurso de ódio gera engajamento que, por sua vez, rende safras milionárias para essas empresas”, ressalta Neiva.
E o resultado disso, diz a dirigente, é o crescimento cada vez maior de agressões físicas e psicológicas contra mulheres, estupros e feminicídios no Brasil e no mundo, por meio do reforço a uma cultura misógina e machista.
Educação para um mundo antimachista
Neiva também destaca a importância de iniciativas de enfrentamento a essa cultura misógina, baseadas em informação, educação e ações de proteção, e lembra o papel do Sindicato nesse sentido.
“A construção de uma sociedade sem misoginia e machismo sempre foi uma bandeira de luta fundamental para os Sindicatos. Assim, na Campanha dos Bancários 2020, conquistamos na mesa de negociação com a Fenaban a implantação, pelos bancos, de canais de atendimento a bancárias vítimas de violência doméstica, conquista que foi se aperfeiçoando a cada ano. Além disso, em 2019, lançamos o projeto Basta! Não irão nos calar, que oferece assessoria jurídica especializada a mulheres vítimas de violência doméstica, bancárias ou não”, exemplifica.
A iniciativa foi ampliada pela Contraf-CUT e hoje o Basta! é replicado por 14 sindicatos da categoria bancária, nas cinco regiões do país, cobrindo um total de 485 cidades. Desde sua criação, o projeto já atendeu 531 pessoas, sendo 529 mulheres.
> Saiba mais sobre o Canal Basta! Não Irão nos Calar para bancárias de Catanduva e região aqui
Além disso, o movimento sindical bancário produziu, em parceria com institutos renomados na área, cartilhas educativas voltadas para o público masculino. “É importante dialogar com os homens porque o combate à violência de gênero tem de envolver toda a sociedade”, acrescenta.
Série de reportagens
Os dados da violência contra mulheres no Brasil têm sido alarmantes. Números de feminicídios, estupros e agressões têm crescido ano a ano. Por isso, neste mês de março, marcado pelo Dia Internacional da Mulher (8 de março), o Sindicato resolveu produzir uma série de reportagens sobre o tema. Esta é a segunda matéria da série, e ao longo dos próximos dias publicaremos outras abordando aspetos variados da questão. Acompanhe!
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