09/10/2026
Da luta pela liberdade a milhões de famílias atendidas: o que o Brasil pode perder sem uma Caixa pública
No século XIX, quando o Brasil ainda vivia oficialmente sob a escravidão, homens e mulheres escravizados guardavam pequenas quantias de dinheiro na esperança de um dia comprar a própria liberdade. Parte dessas economias foi depositada na Caixa Econômica da Corte, instituição criada em 12 de janeiro de 1861 por Dom Pedro II. Mais de um século e meio depois, 158 cadernetas de poupança abertas por pessoas escravizadas foram identificadas no acervo do banco, em uma investigação do Ministério Público Federal.
Além de levantar questões sobre o destino daquele dinheiro, a descoberta mostra um capítulo da história da Caixa entrelaçado à luta dos brasileiros por liberdade e dignidade. E por uma possibilidade construir outro futuro, como acontece até hoje.
Passados 165 anos e diferentes momentos da história, a Caixa tornou-se o banco que financia a casa própria, paga o Bolsa Família, administra o FGTS e leva serviços bancários a lugares onde outras instituições financeiras não chegam.
É essa a história que está no centro do debate sobre o futuro da Caixa e o seu papel social. Em fevereiro deste ano, o candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) afirmou que pretende privatizar 95% das empresas estatais brasileiras. Embora não tenha confirmado que a Caixa esteja entre elas, seu programa de governo defende a retomada das desestatizações.
A declaração reacende uma preocupação antiga da Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa (Fenae): o risco de entregar ao mercado financeiro um patrimônio construído ao longo de gerações e fundamental para a execução das políticas públicas do país.
E há um precedente. Durante o governo de Jair Bolsonaro, a Caixa Seguridade, uma das áreas lucrativas do banco, teve parte de suas ações vendida ao mercado privado. Em abril de 2021, a abertura de capital da subsidiária movimentou R$ 5 bilhões, com a venda de 17,25% de suas ações. Embora a Caixa tenha mantido o controle acionário, a operação representou a privatização parcial de uma área estratégica, processo denunciado à época pela Fenae.
Para a entidade, o risco não se resume à venda integral do banco. A privatização de subsidiárias e áreas lucrativas também pode enfraquecer a Caixa, ao transferir para investidores privados parte dos resultados de atividades que contribuem para a capacidade financeira da instituição.
Quando o banco público faz a diferença
Para compreender o tamanho dessa responsabilidade, basta olhar os resultados da própria Caixa. Somente no primeiro semestre de 2026, a instituição pagou R$ 238,5 bilhões em benefícios sociais, previdenciários e trabalhistas, distribuídos em 227,3 milhões de parcelas.
Desse total, R$ 77,1 bilhões foram destinados ao Bolsa Família, alcançando 20,2 milhões de famílias. É o dinheiro que ajuda a garantir a alimentação, o gás de cozinha e outras despesas indispensáveis à sobrevivência de quem vive com pouco.
No mesmo período, 5,3 milhões de estudantes receberam R$ 5,9 bilhões pelo Pé-de-Meia, programa que incentiva jovens de baixa renda a permanecer na escola. A Caixa também operacionaliza o Fies, que amplia o acesso ao ensino superior, além do seguro-desemprego, do abono salarial e de outros benefícios.
São políticas criadas e financiadas pelo poder público, mas que dependem de uma estrutura capaz de fazer os recursos chegarem aos brasileiros. A Caixa cumpre essa função em todos os municípios do país, inclusive por meio de lotéricas, correspondentes, unidades móveis e canais digitais.
“A privatização da Caixa ou de suas áreas mais lucrativas, coloca todos esses programas em risco. Quem os executaria, em quais condições e com que compromisso de atender pessoas que não representam os clientes mais rentáveis para o mercado financeiro?”, questiona Sergio Takemoto, presidente da Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa (Fenae).
Quem vai financiar a casa de quem ganha pouco?
A moradia é outro exemplo do que está em jogo. A Caixa responde por 67,9% do mercado de crédito imobiliário brasileiro e, somente nos primeiros seis meses de 2026, contratou R$ 73,5 bilhões pelo Minha Casa, Minha Vida.
O programa permite que famílias de baixa renda tenham acesso à casa própria por meio de subsídios e condições especiais. Na Faixa 1, destinada à população de menor renda, a participação do poder público é fundamental para tornar a moradia acessível.
Para Takemoto, a preocupação está justamente em assegurar que a busca pelo lucro não restrinja o acesso de quem mais necessita da política habitacional.
“Quem atenderia essa população se a prioridade de um banco privatizado passasse a ser a rentabilidade dos acionistas? As condições de financiamento continuariam as mesmas? E as famílias que não têm renda suficiente para contratar um crédito nos moldes tradicionais?"
Até as loterias ajudam a financiar direitos
Há uma dimensão da atuação da Caixa que muita gente desconhece: parte do dinheiro arrecadado pelas loterias retorna à sociedade. No primeiro semestre de 2026, as Loterias Caixa arrecadaram R$ 12,2 bilhões. Desse montante, R$ 5,5 bilhões tiveram destinação social, incluindo recursos para seguridade social, segurança pública, esporte, educação e cultura.
Um banco que dá lucro sem abandonar quem precisa
A Caixa também apresenta resultados financeiros expressivos. No primeiro semestre de 2026, registrou lucro líquido recorrente de R$ 7,4 bilhões. Sua carteira de crédito alcançou R$ 1,448 trilhão.
Os números mostram que rentabilidade e atuação social não são incompatíveis. Como empresa pública, a Caixa pode gerar lucro e, ao mesmo tempo, executar políticas que não seriam prioridade de um banco privado.
“Se Flávio Bolsonaro vencer as eleições e levar adiante seu projeto de privatizações, todas essas políticas públicas estarão ameaçadas. Hoje, milhões de brasileiros encontram na Caixa a oportunidade de mudar de vida e realizar sonhos. São histórias diferentes, atravessadas por 165 anos, mas que ajudam a compreender que o futuro da Caixa não diz respeito apenas ao seu lucro, mas às pessoas que ainda precisam encontrar nele uma porta aberta”, ressalta Sergio Takemoto, presidente da Fenae.
Além de levantar questões sobre o destino daquele dinheiro, a descoberta mostra um capítulo da história da Caixa entrelaçado à luta dos brasileiros por liberdade e dignidade. E por uma possibilidade construir outro futuro, como acontece até hoje.
Passados 165 anos e diferentes momentos da história, a Caixa tornou-se o banco que financia a casa própria, paga o Bolsa Família, administra o FGTS e leva serviços bancários a lugares onde outras instituições financeiras não chegam.
É essa a história que está no centro do debate sobre o futuro da Caixa e o seu papel social. Em fevereiro deste ano, o candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) afirmou que pretende privatizar 95% das empresas estatais brasileiras. Embora não tenha confirmado que a Caixa esteja entre elas, seu programa de governo defende a retomada das desestatizações.
A declaração reacende uma preocupação antiga da Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa (Fenae): o risco de entregar ao mercado financeiro um patrimônio construído ao longo de gerações e fundamental para a execução das políticas públicas do país.
E há um precedente. Durante o governo de Jair Bolsonaro, a Caixa Seguridade, uma das áreas lucrativas do banco, teve parte de suas ações vendida ao mercado privado. Em abril de 2021, a abertura de capital da subsidiária movimentou R$ 5 bilhões, com a venda de 17,25% de suas ações. Embora a Caixa tenha mantido o controle acionário, a operação representou a privatização parcial de uma área estratégica, processo denunciado à época pela Fenae.
Para a entidade, o risco não se resume à venda integral do banco. A privatização de subsidiárias e áreas lucrativas também pode enfraquecer a Caixa, ao transferir para investidores privados parte dos resultados de atividades que contribuem para a capacidade financeira da instituição.
Quando o banco público faz a diferença
Para compreender o tamanho dessa responsabilidade, basta olhar os resultados da própria Caixa. Somente no primeiro semestre de 2026, a instituição pagou R$ 238,5 bilhões em benefícios sociais, previdenciários e trabalhistas, distribuídos em 227,3 milhões de parcelas.
Desse total, R$ 77,1 bilhões foram destinados ao Bolsa Família, alcançando 20,2 milhões de famílias. É o dinheiro que ajuda a garantir a alimentação, o gás de cozinha e outras despesas indispensáveis à sobrevivência de quem vive com pouco.
No mesmo período, 5,3 milhões de estudantes receberam R$ 5,9 bilhões pelo Pé-de-Meia, programa que incentiva jovens de baixa renda a permanecer na escola. A Caixa também operacionaliza o Fies, que amplia o acesso ao ensino superior, além do seguro-desemprego, do abono salarial e de outros benefícios.
São políticas criadas e financiadas pelo poder público, mas que dependem de uma estrutura capaz de fazer os recursos chegarem aos brasileiros. A Caixa cumpre essa função em todos os municípios do país, inclusive por meio de lotéricas, correspondentes, unidades móveis e canais digitais.
“A privatização da Caixa ou de suas áreas mais lucrativas, coloca todos esses programas em risco. Quem os executaria, em quais condições e com que compromisso de atender pessoas que não representam os clientes mais rentáveis para o mercado financeiro?”, questiona Sergio Takemoto, presidente da Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa (Fenae).
Quem vai financiar a casa de quem ganha pouco?
A moradia é outro exemplo do que está em jogo. A Caixa responde por 67,9% do mercado de crédito imobiliário brasileiro e, somente nos primeiros seis meses de 2026, contratou R$ 73,5 bilhões pelo Minha Casa, Minha Vida.
O programa permite que famílias de baixa renda tenham acesso à casa própria por meio de subsídios e condições especiais. Na Faixa 1, destinada à população de menor renda, a participação do poder público é fundamental para tornar a moradia acessível.
Para Takemoto, a preocupação está justamente em assegurar que a busca pelo lucro não restrinja o acesso de quem mais necessita da política habitacional.
“Quem atenderia essa população se a prioridade de um banco privatizado passasse a ser a rentabilidade dos acionistas? As condições de financiamento continuariam as mesmas? E as famílias que não têm renda suficiente para contratar um crédito nos moldes tradicionais?"
Até as loterias ajudam a financiar direitos
Há uma dimensão da atuação da Caixa que muita gente desconhece: parte do dinheiro arrecadado pelas loterias retorna à sociedade. No primeiro semestre de 2026, as Loterias Caixa arrecadaram R$ 12,2 bilhões. Desse montante, R$ 5,5 bilhões tiveram destinação social, incluindo recursos para seguridade social, segurança pública, esporte, educação e cultura.
Um banco que dá lucro sem abandonar quem precisa
A Caixa também apresenta resultados financeiros expressivos. No primeiro semestre de 2026, registrou lucro líquido recorrente de R$ 7,4 bilhões. Sua carteira de crédito alcançou R$ 1,448 trilhão.
Os números mostram que rentabilidade e atuação social não são incompatíveis. Como empresa pública, a Caixa pode gerar lucro e, ao mesmo tempo, executar políticas que não seriam prioridade de um banco privado.
“Se Flávio Bolsonaro vencer as eleições e levar adiante seu projeto de privatizações, todas essas políticas públicas estarão ameaçadas. Hoje, milhões de brasileiros encontram na Caixa a oportunidade de mudar de vida e realizar sonhos. São histórias diferentes, atravessadas por 165 anos, mas que ajudam a compreender que o futuro da Caixa não diz respeito apenas ao seu lucro, mas às pessoas que ainda precisam encontrar nele uma porta aberta”, ressalta Sergio Takemoto, presidente da Fenae.
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