Adoecimento causado por trabalho nos bancos preocupa especialistas
O adoecimento causado pelo trabalho, em especial o acarretado pelos bancos, foi o foco de um intenso debate promovido pelo Sindicato dos Bancários de São Paulo. O seminário Saúde e Trabalho Bancário, na segunda-feira 7, na sede da entidade, reuniu diversos profissionais da área de saúde, jurídica, sindical e social, em quatro mesas temáticas.
“O embate entre capital e trabalho se dá na saúde do trabalhador. Esta é também uma oportunidade de fazer um balanço das atividades que temos feito nessa área”, apontou Dionísio Reis, secretário de Saúde do Sindicato.
Para embasar a discussão, Ricardo de Menezes, da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, apresentou um quadro geral das ações realizadas nos Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (CRST). “Nosso grande desafio é a área da saúde mental, os transtornos psiquiátricos já superaram as doenças osteomusculares que por muitos anos foram campeãs de incidência entre os trabalhadores bancários”, pontuou.
Segundo Ricardo, somente de junho a novembro deste ano, dos 102 atendimentos a bancários realizados nos centros, 54% apresentavam transtornos metais. Em seguida estão problemas como LER e Dort (Lesões por Esforços Repetitivos e Doenças Osteomusculares Relacionadas ao Trabalho) com 30,39% dos atendimentos.
Dionísio lembrou que essa inversão reflete a profunda mudança que a categoria e o sistema financeiro vêm sofrendo nos últimos anos. “O número de bancários no Brasil foi reduzido pela metade nos anos 90, agora temos o crescimento da utilização do internet banking, funções operacionais muitas vezes estão sendo substituídas por automação. As funções gerenciais, que mais adoecem no banco por transtornos mentais, têm como tarefa vender obedecendo a normas ambíguas para alcançar metas inalcançáveis. O que nos dá a sensação constante de que quanto mais se trabalha, mais trabalho aparece”, afirmou. O sindicalista ressalta que esse fator é potencializado pelo método arcaico de cobrança por meio do qual quem não obedece é “castigado” com demissões ou descomissionamentos.
Os dados foram confirmados por Eliana Pintor, do Cerest (Centro de Referencia em Saúde do Trabalhador) de São Bernardo do Campo, que contou sua experiência no Grande ABC. Junto ao Sindicato dos Bancários do ABC, o Cerest visitou quatro agências para colher dados sobre a saúde da categoria. No entanto, em todos os locais foi negado o acesso a documentos sobre o adoecimento dos funcionários. A recusa dos bancos levou à penalização por multa e aplicação de formulário nas unidades. “Com a pesquisa vimos que 100% daqueles trabalhadores recebem metas e que a maioria raramente as atinge, ou seja, são metas dificílimas.”
Para Eliana, as informações são exemplo da luta diária dos sindicatos e enfatiza a importância de um trabalho intersetorial no combate ao adoecimento. “Os sindicatos é que são os principais atores disto”, completou.
O advogado e professor Antonio Rebouças também apontou a importância do movimento sindical ao lembrar que a criação das varas previdenciárias e da ação regressiva foram conquistas dos trabalhadores. “Essa luta tem sido exitosa, mas também trouxemos alguns pontos para reflexão”, ponderou. Rebouças alertou, ainda, para a atuação nefasta do Judiciário e do governo do estado de São Paulo para com os trabalhadores. “Eles querem eliminar as varas de acidente de trabalho”, criticou. “Precisamos nos aproximar do Poder Judiciário porque alguns juristas acham que a questão da saúde no trabalho é secundária.”
“É unindo os atores que defendem os trabalhadores e formulando políticas para disputar a organização do trabalho que abriremos novas perspectivas na luta para preservar a saúde do trabalhador”, concluiu Dionísio, referindo-se ao termo de cooperação técnica com a Prefeitura de São Paulo celebrado durante o evento.
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