Analista prevê estabilização da economia brasileira a partir do fim de 2016
Embora a estimativa de retomada do crescimento econômico do país não seja consensual entre economistas, alguns sinais políticos e econômicos apontam para um cenário menos nebuloso em 2016. Os analistas, de modo geral, concordam que os desdobramentos negativos da crise de 2015 e também a superação dos “efeitos colaterais” do ajuste fiscal impedem a previsão de uma retomada do crescimento no curto prazo, mas apontam para um horizonte mais estável ao final de 2016.
Para o economista Luiz Carlos Prado, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a análise dos principais fatores que podem desencadear a retomada permite prever, mais seguramente, o final deste ano como mais “plausível” para o início da estabilização e, consequentemente, uma inversão da “curva” descendente.
A conjunção de fatores positivos, como tendência de inflação mais baixa, queda menos acentuada do PIB e expansão das exportações impulsionadas pela alta do dólar, e negativos, como o cenário internacional turbulento e a ainda não superada crise política brasileira, não justificam um otimismo no curto prazo, na opinião de Prado.
“Precisamos ter ou retomada do investimento, e aí implicaria algumas ações do governo para puxar esse investimento, ou aumento do consumo privado. Provavelmente, na parte privada, pode até não continuar a queda na mesma proporção de 2015. O salário mínimo (que foi para R$ 880,00) é um fator positivo. Mas, por outro lado, o desemprego deve ainda aumentar”, avalia.
A equação do crescimento passa necessariamente pela questão da balança comercial, mas, para o economista, essa variável também deve ser relativizada em função do cenário internacional e do próprio peso das exportações brasileiras no conjunto da economia. “Acho que vai haver aumento do superávit comercial, inclusive na exportação de manufaturados. Mas a economia mundial não está bem, e os preços do que exportamos está muito baixo. Então, em termos de valores, o cenário não é positivo. Certamente teremos superávit na balança, mas o comércio exterior tem uma porcentagem pequena na nossa economia, e acho difícil que isso, isoladamente, puxe o crescimento.”
De acordo com números do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, embora oscile entre sétima e oitava economia mundial, o Brasil ocupa apenas o 25° lugar no ranking de países exportadores. Entre os países do Brics, tem a menor participação de exportações em relação ao PIB: enquanto esse índice é de 27% no Brasil, chega a 64% na África do Sul, 53% na Índia, 51% na Rússia e 50% na China.
Por falar em China, sem considerar os blocos, mas apenas países, é o maior comprador do Brasil. Do total das exportações brasileiras em 2015, 18,6% (U$ 35,6 bilhões) foram para o país asiático, número 11,3% menor do que no ano anterior. “E o preço das commodities (principal pauta da exportação brasileira) depende muito da economia chinesa”, lembra o economista. A queda das exportações para a China foi menor do que a queda média nas exportações brasileiras (14,1%), mas tem impacto importante, pelo volume das vendas ao gigante do Oriente.
Segundo Prado, o cenário internacional adverso não facilita uma retomada da economia brasileira no curto prazo. “Se o problema fosse essencialmente interno, haveria como retomar mais facilmente. Mas a junção dos cenários externo e interno não ajuda.”
Ele destaca que no início do ano a economia estará em queda, inclusive pela “inércia do período anterior”. “Mas não acho absurdo que lá no final do ano, quando ficar mais claro o cenário político, o que vai facilitar a tomada de decisão dos agentes econômicos, haja uma tendência de estabilização. O cenário de crescimento está mais para 2017. Em 2016 a queda da economia deve ser menor do que 2015 e é provável que no final do ano esteja se estabilizando. É um cenário bastante plausível.”
A Petrobras é outra variável essencial na equação da economia brasileira. A companhia é a principal representante do setor de petróleo e gás no país. O setor é responsável por 13% do PIB nacional, segundo a própria companhia. Com a Operação Lava Jato e a brutal queda do preço do petróleo (que chegou a inimagináveis U$ 33 o barril), os negócios da empresa e sua capacidade de investimento estão hoje seriamente comprometidos.
Entre os fatores positivos, que podem estimular a economia, a substituição de Joaquim Levy por Nelson Barbosa sinaliza a retomada de uma economia um pouco mais agressiva, na opinião de Luiz Carlos Prado. “Mas o ministro da Fazenda, isoladamente, não pode fazer muita coisa. Tudo depende da capacidade que ele tem de aprovar políticas, tanto no Congresso como no próprio governo.”
Prado considera Barbosa “pragmático” a ponto de manter uma política cautelosa. A conjuntura o coloca no centro de uma pressão muito forte e a própria Dilma Rousseff tem afirmado que o governo vai evitar solavancos com o objetivo de chegar ao crescimento gradativamente.
A expectativa de que o pagamento das “pedaladas fiscais” pelo governo podem ter potencial importante de estímulo à economia é um dos fatores dessa equação. O Tesouro pagou, no final de 2015, R$ 55,8 bilhões ao BNDES, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e FGTS. O setor de habitação seria o principal setor incentivado com os recursos.
Mas, para isso, o cenário do financiamento imobiliário precisa clarear, com a diminuição dos juros e mecanismos para facilitar o financiamento, considerando que, hoje, as famílias estão afetadas pelo desemprego e taxas de juros altas.
“Uma saída são os programas de infraestrutura, de licitações de estradas, por exemplo. Seria uma área que poderia responder num período de tempo relativamente curto. Mas, em economia, curto prazo são meses”, diz Luiz Carlos Prado.
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