21/12/2020
Caixa desrespeita empregados e volta com GDP; Entidades sindicais querem diálogo

Fomentar uma cultura meritocrática. É assim que a Caixa define a implementação da Gestão de Desempenho de Pessoas, a GDP. No entanto, o sistema tem piorado as condições de trabalho, ampliando a sobrecarga dos empregados, aumentando os assédios e o adoecimento da categoria. O relançamento aconteceu há poucos dias do fim do ano, e com o atendimento ao auxílio emergencial as avaliações de desempenho podem ficar prejudicadas.
Uma empregada Caixa do Distrito Federal que preferiu não se identificar explicou que muitos trabalhadores estão assustados e classificou a GDP como uma porta para o assédio. Com o pouco tempo para as avaliações, o empregado não terá oportunidade de entrar com recurso para contestar o resultado. “Tem muitos gestores que desviam os princípios da GDP. Há ainda casos em que o gestor que está avaliando não passou tempo suficiente com o empregado. Dependendo do resultado, o colega pode ficar impedido de fazer um processo seletivo para ir para outra unidade. É uma via de mão única”, contou.
Outro aspecto destacado pela trabalhadora é a falta de um canal de denúncia da GDP. “Os empregados não conseguem se proteger. Não tem um canal de denúncia da GDP, um acompanhamento para identificar se os dados colocados estão dentro das regras”, afirmou. Para ela, a implementação da GDP é uma forma da Caixa justificar os descomissionamentos e assédios que acontecem na empresa.
Em maio de 2020, a Caixa enviou um documento para todas as unidades informando a suspensão do ciclo 2020 da GDP, por conta das ações preventivas relativas a Covid-19 e do pagamento do Auxílio Emergencial. A direção do banco assumiu o compromisso de que "nenhuma unidade ou empregado terá impacto na sua carreira em razão dos resultados observados enquanto durar esta fase de confinamento", conforme afirmou em documento, a vice-presidência de Varejo. No entanto, o banco não cumpre nem o que escreve.
"Olha o cenário em que estamos. Uma pandemia em que o número de casos está crescendo. Enquanto isso, a direção da Caixa segue sobrecarregando os colegas. Para que a Caixa quer avaliar os empregados? Eles já mostraram durante o ano todo o quanto são competentes e comprometidos. A empresa deveria reconhecer todo o esforço. Os colegas estão cansados e vemos que mais uma vez o assédio institucional é a linha de ordem da empresa. Lamentável!", afirmou a coordenadora da Comissão Executiva dos Empregados da Caixa (CEE/Caixa), Fabiana Uehara Proscholdt.
O debate sobre a GDP é algo que a CEE/Caixa tem tentado construir junto à Caixa. “Já que o banco quer usar a GDP para tudo no que se refere ao crescimento funcional do empregado, nós precisamos debater e construir melhor o processo.”, explicou Fabiana.
Na última quinta-feira (17), na reunião do Grupo de Trabalho (GT) de Promoção por Mérito, a Caixa defendeu a aplicação da GDP em sua totalidade. A proposta foi rechaçada pelos representantes dos trabalhadores.
Na avaliação do diretor do Sindicato dos Bancários de Catanduva e região, Antônio Júlio Gonçalves Neto, a GDP enfraquece os trabalhadores. Tony defende que a Caixa precisa reconhecer os empregados e todo o empenho feito por eles nesse ano de pandemia.
"O Programa de Gestão de Desempenho é baseado na cobrança de metas e na avaliação individual dos empregados. Esse modelo de gestão já é causa de adoecimento da categoria. Como os empregados podem ser avaliados nesse momento de pandemia? O resultado é o aumento do adoecimento dos trabalhadores, que já enfrentam sobrecarga diante da escassez de funcionários. Além disso, todo o programa é baseado em critérios individuais, o que torna o local de trabalho um ambiente de disputa, em contraposição a uma prática laboral que deveria ser colaborativa. O que a direção do banco está fazendo é desumano e uma falta de respeito. A medida coloca a Caixa mais perto da forma de gestão dos bancos privados, voltada totalmente para obtenção de lucros elevados e baseada na exploração dos empregados, enquanto a principal preocupação deveria ser preservar a saúde física e mental dos trabalhadores neste momento tão crítico de pandemia”, avaliou o diretor.
A GDP
A Caixa iniciou a implantação do GDP em 2015, sem que houvesse qualquer discussão com os representantes dos empregados. Em maio daquele ano, a Fenae e a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT) iniciaram uma campanha de conscientização e mobilização contra o programa.
No Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) 2015-2016, os trabalhadores conseguiram a suspensão de uma nova etapa do programa, que era prevista para ser implantada em agosto de 2016 e atingiria todos os empregados. Foi uma conquista importante, mas parcial, pois a direção do banco sempre se recusou a revogá-lo, já planejando sua retomada, o que está ocorrendo desde 2017, com a publicação da mais recente versão do normativo RH 205.
Na Campanha Nacional de 2020 a GDP também foi pautado. O tema apareceu no 36º Congresso Nacional dos Empregados da Caixa Econômica Federal (Conecef), indicado pelos trabalhadores que cobravam o fim da GDP e também o fim do Score e imediata discussão sobre a metodologia dos Processos de Seleção Interno (PSI).
Em função do curto prazo, que na prática inviabiliza a divulgação dos critérios aos empregados, adequação de sistemas e atualização de normativos, os representantes dos empregados apresentaram a proposta de que todos os empregados que não estiverem enquadrados nos impedimentos previstos pelo RH 176 fossem contemplados com o Delta.
“Nós não estamos em um ano de avaliação dos empregados. Nós estamos em um período de reconhecimento por todo o trabalho feito heroicamente durante a pandemia. Como a empresa quer dizer que os empregados que estão trabalhando quase todos os sábados e até hoje, em muitas agências, atendem o público até as 21 horas e são cobrados por metas não merecem Delta?”, disse o diretor-presidente da Apcef/SP e membro da CEE/Caixa, Leonardo Quadros.
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